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Empresas Centenárias

Postado em Out 18, 2013 em Conteúdo, Gestão Empresarial | 0 Comentário

AS EMPRESAS DURADOURAS E SEUS FUNDAMENTOS

Um dos traços predominantes das organizações relevantes e duradouras é que elas nascem a partir de um sonho e do desejo de realizar algo notável, que geralmente correspondem a uma necessidade profunda de quem o concebeu.

Uma organização se credencia à longevidade quando se torna relevante para a sociedade, ou seja, quando os vários públicos com os quais ela interage reconhecem sua utilidade e a elegem como parceira, criando uma blindagem ao seu redor.

Estruturar uma organização relevante exige tempo e empenho. Nem sempre ela inicia sua trajetória com clareza absoluta dos rumos a seguir. O embrião que a sustenta reside na convicção de seu líder – de que é impossível realizar algo sem a ajuda de outras pessoas. A esta certeza se associa o sentimento do empreendedor, que busca oferecer algo novo e útil à sociedade.

As organizações nascem, crescem e morrem – e muitas, desaparecem prematuramente. Segundo estudo do BNDES, a expectativa de vida média das empresas brasileiras é de 8,75 anos (no Japão e em grande parte da Europa é de 12,5 anos). O que puxa para baixo a estatística é a alta taxa de mortalidade das pequenas empresas. De cada grupo de dez empresas criadas e registradas em juntas comerciais no Brasil, apenas duas chegam ao quinto ano. Dessas, poucas chegam a completar 10 anos e raríssimas alcançam duas ou três décadas.

Apesar dessas estatísticas, há diversas organizações longevas no Brasil. De acordo com pesquisa conduzida pelo professor Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral, temos vários exemplos de empresas centenárias, como a indústria têxtil Cedro Cachoeira, que está completando 134 anos, e a Siemens e Drogaria Araújo, ambas com 100 anos. Em outros países, são legendárias histórias como a da Stora, empresa sueca de mais de 700 anos, e a do Grupo Sumitomo do Japão, cuja origem data de 1.590. No Reino Unido existe uma associação comercial – o Tercentenarians Club – que aceita apenas empresas com mais de 300 anos.

Uma das principais causas da morte de empresas é o seu ambiente interno, em que predominam a luta pelo poder, a formação de grupos de interesse e a descrença, sufocando a imaginação e o comprometimento das pessoas. As que conseguem sobreviver à imaturidade natural dos momentos iniciais de pioneirismo se guiam por fundamentos, vindos de crenças profundas, que se revelam pouco a pouco. São as bases essenciais, o alicerce de uma construção sólida ou a semente selecionada de uma planta que vai se transformar em árvore centenária, como os carvalhos.

Para entender as principais características dessas organizações é preciso desmistificar algumas questões. A primeira delas é o lucro, que muitos acreditam ser o único objetivo da empresa. Toda organização precisa do lucro para investir no seu desenvolvimento e remunerar o capital nela empregado, mas os empreendimentos que assumem um papel influente na coletividade são movidos por outras razões: o que os inspira é a vontade de contribuir para o desenvolvimento da sociedade.

Se o lucro não é o principal alvo, como essas empresas sobrevivem? Movidas pela vontade de ser útil, elas transformam seus produtos e serviços em bens relevantes para a sociedade. Os resultados financeiros passam a ser conseqüência do valor que os clientes lhe atribuem. Também não gastam muita energia combatendo os concorrentes, pois direcionam sua capacidade interna para se diferenciar no mercado. São parceiras da coletividade, que vêem nelas uma relevância superior – passam a dar prioridade aos seus produtos e serviços, e muitas vezes as protegem.

Na verdade, têm uma relação muito próxima com o ambiente externo e interagem com ele de forma estruturada. Procuram entender não apenas o cliente, mas também acompanhar o seu entorno, os movimentos da sociedade e da economia que têm impacto em seus produtos e clientes. Com esse monitoramento conseguem se antecipar ao mercado, oferecendo produtos e serviços inovadores que correspondam cada vez mais às necessidades da sociedade.

Essas empresas não se contentam em fazer somente o ordinário e repetitivo. Acreditam que é sempre possível fazer melhor do que fazem hoje. Além disso, têm metas ambiciosas e desafiadoras, buscando atingir conquistas que, aos olhos de outras pessoas, parecem impossíveis. Para superar limitações e permitir que as dificuldades do dia-a-dia sejam superadas, mobilizam as pessoas. Por tentarem o impossível, às vezes seu ambiente de trabalho não é confortável, podendo chegar a estressante se os dirigentes não entenderem que é preciso absorver os erros de forma positiva.

O fator principal da maior expectativa de vida de uma organização é, sem dúvida, o seu contexto interno. As empresas longevas se organizam como comunidades, e não apenas como estruturas técnico-operacionais. Em geral, se notabilizam por um ambiente com alto grau de autonomia. O arranjo e o estilo organizacional criam as condições para a existência de um ambiente estimulante que leva seus colaboradores a se empenharem para que a empresa dure além da sua geração.

Na maioria dessas empresas, os dirigentes são recrutados internamente e acabam ficando longo tempo. São líderes modestos e obstinados, que não se sentem salvadores da pátria. Como identificaram Kouzes e Posner, mobilizam os outros não para fazer, mas para que queiram fazer.

Já é visível um número expressivo, embora não majoritário, de empresários que adquiriram extraordinária consciência do papel que eles próprios e suas organizações têm na sociedade. Ao perceberem com clareza que seus negócios devem ser geridos com o propósito de gerar valor para a comunidade, esses dirigentes desenvolvem uma liderança transformadora. Suas orientações e exemplos pessoais colaboram para a modelagem de um ambiente energizante e desafiador que desperta o potencial empreendedor das pessoas. Assim, colaboram fortemente para garantir uma vida longa a seus empreendimentos.

Características das empresas relevantes e duradouras

•    São mais guiadas por valores e princípios do que por objetivos financeiros. Sua razão de ser está ligada ao desejo de servir e oferecer produtos ou serviços de efetiva utilidade para a comunidade. Apesar de não terem o lucro como única finalidade, são muito lucrativas.

•    Enxergam-se (e se organizam) mais como comunidades de pessoas do que como uma estrutura físico-jurídica (mecanicista). O futuro das pessoas que nelas trabalham se confunde com o futuro da empresa. É forte a sensação de pertencimento e orgulho em trabalhar na empresa.

•    Têm elevado grau de autonomia. A autonomia leva à possibilidade de escolha e quem tem esta opção torna-se proprietário.

•    Sua estratégia é mais de diferenciação do que competição. Não se preocupam em aniquilar os concorrentes. Oferecem produtos ou serviços que as distingam no mercado e que agreguem valor para os clientes.

•    Desenvolvem a capacidade de cooperar com fornecedores/clientes e até com concorrentes (parcerias e alianças).

•    Tentam fazer o impossível. Não se contentam em fazer o que os outros fazem. Perseguem metas desafiantes. A frase mais ouvida nessas empresas é “o difícil fazemos agora; o impossível demora um pouco mais”.

•    São otimistas e compulsivamente voltadas para fazer melhor o que fizeram uma vez (melhoria contínua). Acreditam e agem como se o progresso fosse ilimitado. Adotam um processo qualquer de “como fazer para fazer melhor”.

•    Combatem o ufanismo e rejeitam o triunfalismo (considerações como “somos os melhores”, “empresa de sucesso”, etc.).

•    Nunca estão satisfeitas consigo mesma. A palavra de ordem é “reconstruir a empresa diariamente”.

•    Aprendem permanentemente e compartilham o conhecimento. Valorizam o conhecimento interno e praticam o benchmarking externo. São humildes e estão sempre aprendendo com outras empresas.

•   Trabalham com o cliente. Praticam uma “escuta comprometida” e privilegiam a construção conjunta.

•    São extrovertidas – conhecem e interagem com o ambiente externo. Seus maiores objetivos são: adaptar-se; antecipar-se; melhorar o ambiente. Procuram sempre surpreender seus clientes com soluções inovadoras.

•    Transformam-se em verdadeiras escolas – locais de constante aprendizado.

•    Crescem com as crises. Acreditam que elas são salutares e não catastróficas, aprendendo a domá-las.

•    Criam bases para o futuro. São importantes fatores como: o papel da liderança, a sucessão dentro da empresa, um contexto organizacional estimulante (decisões baseadas em valores, comunidade e autonomia, flexibilidade e coordenação) e uma sintonia com o ambiente externo.

Emerson de Almeida Presidente da Fundação Dom Cabral autor do livro “Fundamentos da Empresa Relevante – Meu Aprendizado na FDC”

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